segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Cecília


Há quanto tempo que não nos encontramos não?! E você continua sendo a mesma pessoa fraca e insegura, mas que mesmo assim tem a esperança de levar o mundo nas costas. Eu sei que você se sente sozinha. E que guarda todas as cartas que escreve, porque não consegue ver nos seus 'olhos de céu' nenhuma felicidade por tê-las nas mãos.

Eu sei que você se sente uma boneca de pano esquecida no fundo do armário.

Qualquer coisa é mais interessante que você. Mas do que que isso te adianta? É claro que a culpa é sua, mas você continua tentando, remexendo, e incomodando. Incomodando muito. Sabe Dayse, que sempre que eu apareço isso acontece. Todo mundo vai embora. Todo mundo tem que fazer alguma coisa em outro lugar, menos ouvir o que eu tenho a dizer.

E não adianta dizer que você tá com sono, tem que ler alguma coisa. Eu não vou sair daqui enquanto você não me ouvir, não acatar o que eu te digo, faça isso, faça!

- Mas eu quero que você vá embora!
- Mas eu não vou, enquanto eu não lacrar essa fresta que nasceu dentro de você.
- Você se destrói junto comigo.
- Mas te ver nessa luta sem fim é mais prazeroso do que viver.

Não adianta contar as horas, não adianta se esconder, querida! Pra ninguém isso faz diferença. Nem pra quem você pensou que fizesse. Não adianta tentar se convencer. Você é um step.

Nem há mais um lugar pra você descansar.

"Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu não vou me destruir
Posso até ficar triste se eu quiser
Só por hoje, ao menos isso eu aprendi"

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Chico de minha vida


Esta semana eu tive um dos melhores sonhos de minha vida. Para que entendam o que senti, vocês têm que saber, primeiramente, que a maioria de meus sonhos são extremamente reais. Também esse não tinha absolutamente nada de borrado, nem pulava de um lugar sem nexo para outro pior ainda. Porém, o conteúdo é no mínimo curioso.

Eu vivia num Brasil que parecia estar na ditadura, e Chico estava lá. De repente, lhe apontam uma arma na cara. Eu, numa atitude que simplesmente não acreditei que tive coragem de tomar, me coloquei na frente da arma, e gritei para que não fizessem isso. Porque aquele era o MEU Chico, meu ídolo, o melhor homem que já pisou na terra. A mulher que segurava a arma ficou sem reação. Se virou e saiu, deixou Chico deitado naquele chão sujo, com seus lindos olhos azuis transbordantes confusos.

Então ele me agradeceu, e saímos andando por aquelas ruas feias, cheia de gente miserável e suja, ruas sem saneamento, pessoas que eu podia ver, não carregavam mais nenhuma esperança.
E ele foi me falando sobre sua vida, sobre a vida dessas pessoas, do jeito que ele sempre fez, sempre falou dos problemas desse país, sempre criticou o modo como o menos favorecido é tratado aqui. De modo subjetivo ou não. Mas sempre mostrando a crueldade desses homens sem escrúpulos, sem nunca aceitar que roubassem nossos diretos, e além disso falando de amor, me fazendo suspirar. E tudo aquilo foi tomando conta de mim de uma forma que me senti um nada, porque nunca usei minha juventude em prol de causas tão nobres. E ao mesmo tempo me sentindo feliz por saber admirar a sua arte. Será possível Chico, que até em sonhos você consegue mexer tanto com a gente?!

Logo nos tornamos grandes amigos, ele me ouvia, andava comigo por todos os lugares, mas não me via como uma menina idiota, e sim como uma amiga, a quem ele considerava. Aqueles olhos azuis me disseram tudo isso, e foi tão mágico! Nunca me senti tão querida em toda a minha vida.

Mas como todo mundo sabe, o que vem fácil, vai fácil também. De repente tudo ficou escuro. Chico se foi. E quando acordei, depois de apenas mais1 segundo de felicidade, abri os olhos e me vi sozinha em meu quarto, sem admiração, sem dor, sem coragem, sem Chico.

Mas eu nunca me esquecerei da sensação de ter sido estimada por alguém tão maravilhoso assim, tão corajoso, tão sensível, tão compreensivo, tão homem... O melhor poeta. Como alguém pode ser tão generoso assim? Eu só queria ter a metade de sua força, Chico. Em um sonho você me ensinou coisas de que nunca vou me esquecer.

Se todos fossem no mundo iguais a você, tudo seria muito mais justo e feliz.

Sonho impossível - Chico Buarque

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

All apologies.


Vou começar hoje dizendo que ela já me disse que sempre quis um menino. Quase conseguiu, isso porque eu estou longe de ser a menina mais vaidosa do mundo. E é até engraçado que depois de que ela se convenceu de que não tinha parido um filho, e sim uma 'menina que nasceu feia de assustar qualquer um' ela queria que essa menina fosse extremamente feminina e vaidosa. Até os meus trezes anos, me vesti exatamente do jeito que ela queria. Quando eu era criança, eu gostava até. Andava de salto, roupinha rosa, batom vermelho... Mas depois, quando aprendi a diferenciar gostar de aceitar, comecei a me incomodar com aquela condição de ser apenas uma boneca nas mãos de uma criança geniosa. Odiava aqueles babados, aquele batom 'roxo com purpurina', aqueles caderninhos rosas da barbie. Não sei por onde isso começou. Mas me lembro que as pessoas riam muito, se divertiam a valer com aquela cdf que parecia ter a mão colada na cadeira, que usava roupas ridículas e achava que agradava alguém com aquele jeitinho irritante. Eu não dizia nada disso pra ela. Deixava que rissem, pelo menos ela estava satisfeita. O que me faz lembrar de que até o meu ensino fundamental, eu era uma aluna exemplar. Tirava ótimas notas, apesar de ter muito problema com conversa, mas não deixava de receber diplomas de 'honra ao mérito' e ser elogiada pelos professores. Essa época ela ainda me elogiava. Não sei se me achava mesmo 'bonita e inteligente' mas era o que dizia pra todo mundo. Ela sempre fez as coisas pros outros verem, e sempre me ensinou a ser assim. Era extremamente rígida com o meu ensino. Eu nunca fui cuidadosa, jeitosa ou caprichosa. Sempre fui um desastre nato. O que lhe deu mais um motivo para me fazer passar folhas inteiras a limpo, já que eu 'escrevia tudo torto, fora da linha'. Apesar disso, não costumava ser muito atenciosa em outros aspectos. Posso contar nos dedos as boas lembranças que tivemos juntas, na minha infância. Na questão material, sempre se esforçou para que eu sempre tivesse do bom e do melhor, para que os outros vissem como eu era 'bem cuidada'... sempre o que os outros poderiam dizer!
Apesar da sua frieza, eu contava as horas para que ela chegasse. Eu passava o dia lendo tudo o que tivesse na minha frente, mas quando estava perto da hora de ela chegar, eu ficava ansiosa, e mal podia esperar a hora em que ela apareceria no portão, sempre reclamando que tinha 'trabalhado como uma condenada'. Aliás, ela sempre jogou isso na minha cara. Que o que eu tinha que fazer na minha vida seria no mínimo ter um ótimo emprego, ganhar super bem para que nós morássemos numa bela casa, só nós duas. Isso mesmo: ela nunca pensou em se casar de novo. Sempre dizia que nunca aceitaria um homem em sua casa, tinha medo de que ele me fizesse mal. Isso sempre me incomodou muito. Ela abriu mão da vida dela por mim, e isso me faz sentir ainda mais culpada por essa situação. Ela queria que eu seguisse o seus passos também: que eu não me casasse, e vivesse com ela até o seu último dia de vida...
Teve alguns namorados, até alguns anos atrás, saía bastante a noite. Eu sempre ficava olhando enquanto ela se arrumava, e tinha muito ciúme. Mas disfarçava isso, já que ela dizia a todos que eu era uma criança muito compreensiva. Sempre na esperança de agradá-la! Não sei o que aconteceu comigo, mais de uma hora para outra eu me tornei tudo o que ela não queria. Na verdade, eu acho que nunca fui isso. Comecei a escolher as minhas roupas, que ela odeia 'não entendo como uma garota vive dia e noite de coturno, e ainda por cima não usa batom', aprendi a falar o que eu penso, sem me preocupar o que possam achar disso. Ela sempre fica constrangida, e tenta pedir desculpas pros outros, com os olhos, talvez inconscientemente.
Ela começou a frenquentar o meu colégio quando as advertências começaram a aparecer. E se dizia muito desgostosa. Para ela, eu tinha virado um monstro da noite para o dia. Às vezes me machuca ver como ela admira as pessoas fúteis e mesquinhas. Meninas que querem trocar o guarda-roupa a cada mudança de estação. Me machuca ela me dizer que não consegue entender como eu tenho tantos amigos, sendo eu uma pessoa tão insuportável. Ela detesta a idéia de que eu não me sinto superior a ninguém, apesar de ela nunca ter me deixado brincar com as 'crianças sujas desse lugarzinho'... Ela nunca ouviu nada do que eu ouvi. Eu é que era ridicularizada...
Não sei quem me ensinou isso, mas pra mim, piercing e tatuagem não são sinônimos de falta de caráter. Cada um faz o que quer com o seu corpo. Eu admiro quem diz o que pensa, e quem têm ideais e luta por eles. Não sou hipócrita, e depois de ter lido metade da bíblia, não finjo mais que acredito em Deus.
Os meus sentimentos foram sendo mortos a cada discussão sem sentido, a cada palavra venenosa, a cada grito que feriu meu coração e meus ouvidos. Eu devia estar imune a tudo isso, mas não estou ainda. Me tornei irônica, egoísta, mesquinha e covarde ao ponto de não assumir as coisas que eu faço. Sempre coloco a culpa nos outros. São muitaslembranças, muitas pistas que me fazem pensar: 'será que ela nunca me ouviu chorar antes de dormir?'... E mesmo assim ela continua ali, odeia o que eu escuto, o jeito que eu penso, e da única vez que eu, bêbada, lhe disse algumas verdades, ela não teve coragem de brigar. Aquela noite nós dormimos de mãos dadas. Toda vez que o telefone toca, meu coração dispara. É sempre uma reclamação. Eu não me sinto mais segura do lado dela. Eu não suporto mais ter que voltar para casa o 'cômodo que eu aluguei e há uns seis meses não pago o aluguel.' É assim que eu me sinto para todos eles. Um estorvo. Acho que a única coisa que ela gosta em mim é o meu humor ácido, que a faz rir de vez em quando... Eu queria aprender a não julgar. Deve ser difícil olhar para alguém e ver nele o fracasso do seu casamento, a entrega da sua vida pra não dar em nada, um bilhete perdido de loteria. Eu só quero pedir desculpas:

- por não ser uma patricinha fútil.
- por não ser educada e meiga com as pessoas.
- por gritar e desobedecer.
- por achar que as vontades das pessoas têm que ser respeitadas.
- por não conseguir ser feliz, já que tem alguém sofrendo enquanto eu rio.
- desculpe por não poder ser um médico, um advogado, um engenheiro.
- Me desculpe por não sentir amor por você, só a obrigação de pagar pelo o que você fez.

Eu já desisti de ser uma pessoa melhor aos seus olhos. Hoje eu sou assim. E não adianta tentar me me mudar, por mais que você continue adizer que tem vergonha até de andar do meu lado na rua. Boa noite a todos vocês.

Felipe, obrigada por existir! ^^